biografia1

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Pedro Aniceto nasceu há cinquenta e um anos em Lisboa na Maternidade Magalhães Coutinho, que por coincidência (ou não), fechou meses depois. Nasceu de parto normal, mas não conseguiu obter uma alta clínica imediata, porque, segundo o corpo médico, “faltariam uns acabamentos”. Foi coisa de mais algumas semanas. Diz o próprio que talvez o mundo não estivesse pronto para o receber, mas quem realmente sabia dessas razões limitou-se a exclamar “Deus nos livre se este gajo vai assim lá para fora!”…

Frequentou a Escola Masculina Nº 37 de Lisboa, que incrivelmente (ou não) encerraria alguns anos depois para renascer como Universidade Luís de Camões. Ele há coincidências muito curiosas! Desde muito novo que se interessou pelo Movimento Escotista e ingressou aos sete anos no Grupo Nº7 da Associação dos Escoteiros de Portugal, em Lisboa, Grupo que não fechou ainda as respectivas portas. Viveu intensamente o Movimento durante treze anos em variados graus da hierarquia escutista. “Foi uma experiência de valor incalculável em termos de experiência de vida”, diz o próprio, mas as Chefias limitam-se a exclamar “Tirem-me este gajo daqui!“.

Com a idade de catorze anos ingressou no Sport Lisboa e Benfica disposto a praticar uma modalidade qualquer, “de preferência atletismo para ver se deixo de ser um palito…”. Não consegue com isso explicar totalmente a razão da escolha clubística mas “o Aniceto Simões, aquele tipo que no atletismo nunca ganhava nada a ninguém, estava a desgraçar-me a reputação”.

Devido a ser muito distraído (hábito que mantém bem arreigado…) não percebe que houve uma infeliz troca de indicações do local do primeiro treino e conseguiu juntar-se a uma equipa de iniciados de Basketball. Uma hora depois de ter iniciado esse treino ainda se interrogava “porque razão um treino de atletismo é feito num pavilhão cheio de gente com mais de um metro e oitenta?”. Recordará como sábias as palavras de um treinador, que finda a sessão de esforçado apuro desportivo lhe disse: “Você devia pensar em treinar atletismo!”. Assim fez. Dois anos e meio de fundo e meio-fundo passados a subir e a descer encostas na mata de Monsanto serviram-lhe de emenda e concluiu a sua curta carreira de desportista. O clube, esse, curiosamente não fecharia portas, e continua a ser o melhor e maior clube do mundo!

Foi educado segundo os mais rígidos princípios da religião católica; frequenta por isso a Igreja de Santa Marta em Lisboa, edificação que foi demolida sete anos depois do seu baptismo cristão, levado a efeito em 1964. O oficiante da cerimónia, D. Qualquer Coisa do Nascimento foi posteriormente nomeado bispo em Angola, o que não sendo verdadeiramente curioso, não deixa de ser deveras preocupante…

A cerimónia de baptismo, facto que não é por norma memorável para a maioria das pessoas, é ainda hoje recordada no seu círculo familiar como “O grande berreiro”, facto justificado por sua mãe que diz que “tudo se deveu a lamentável lapso com o alfinete-de-ama na fralda” – que alguém deixou aberto! -, “pronto, deixa lá de falar nisso que já passaram muitos anos…”.

Dotado de uma energia estranhamente inesgotável, entrega-se a todas as actividades possíveis na órbita da igreja da sua paróquia. Na opinião do pároco local “é dotado de uma entrega generosa”, mas no fundo é o lema “E miúdas? Há lá miúdas?” que o faz efectivamente mover-se. Fez carreira efémera no coro paroquial da Igreja do Coração de Jesus, (igreja que ainda não foi demolida!), no Grupo de Jovens e até no Grupo de Acólitos do Padre Manuel Maria e noutras actividades de carácter religioso. Este Padre que define os seus grupos como “um grupo extraordinário de jovens” é contrariado pelo biografado como sendo “um grupo de corrécios da pior espécie, cada um mais jeitoso que o anterior…”.

Desiludido profundamente com a sua relação com a Igreja, procura rapidamente outros ambientes. Torna-se um radical com múltiplos interesses culturais e dedica-se de alma e coração à leitura. Descobre Marx, Salgari, Baudelaire, Verne e Dumas (tudo ao mesmo tempo, que se é para a loucura, é para a loucura…), em paralelo com Dostoyevsky e a Crónica Feminina. Adopta dúzias de hobbies: Química, da qual desiste precocemente por imposição familiar, depois daquilo que considera “meros acidentes de laboratório” mas que o seu pai categorizou como “Um dia destes queimas-me a casa meu grande malandro!“, electrónica, filatelia, numismática, rádio-amadorismo, música, poesia, prosa e muitas outras de que não guarda sequer uma singela memória, mas que foram muito boas enquanto duraram.

Contra a sua própria vontade ingressa na Escola Industrial Machado de Castro num curso de Mecanotecnia onde é confrontado com a necessidade de “aprender um ofício”, coisa da qual quis fugir a sete pés quando percebeu que iria ser obrigado a aprender “o domínio da arte da limagem do ferro”, ou, na sua singela opinião “aquela merda que nunca mais fica à esquadria”. Faz “os mínimos necessários à sobrevivência escolar”, “uma porcaria de notas” segundo os progenitores e o estabelecimento de ensino é encerrado sete anos depois de por lá ter passado, tendo acabado os seus dias como estúdio da Operação Triunfo, o que se não é muito bem feita, não sei o que lhe chamar…

Vive o Verão Quente de 1975 e os tempos heróicos do PREC em plena crista da onda revolucionária. Por viver em pleno Marquês de Pombal vai a todas as manifestações que por lá passam (e não foram poucas). Não falha uma RGA (Reunião Geral de Alunos). Não sabe muito bem o que lá faz “mas isto é giro e há que partir os dentes à reacção!”. É nesta fase que a realidade da vida lhe chama a atenção, pois é apanhado a fazer pinturas murais no emprego do seu pai (do lado de dentro da prédio…) e tem de justificar ter apelidado de nazi ao coitado do Urbano que até era boa pessoa, mas que era o único patrão que o biografado tinha ali à mão de semear…

Anula as suas militâncias revolucionárias, quase todas terminadas em “ista”, desliga-se do sonho de mudar o mundo sozinho e de bolsos vazios. No Verão de 1979 toma uma decisão de fundo na sua vida e terminadas as lides escolares desse ano inicia a busca daquilo que considera ser uma ambição legítima: “Um emprego temporário que lhe permita aumentar os rendimentos mas que seja ao mesmo tempo uma actividade digna, de preferência sem ter que transpirar muito”.

Com escassos contactos no mercado de trabalho, envereda por buscas esforçadas nos anúncios de emprego dos jornais dominicais, buscas essas que não surtem grande efeito. Iniciará o Verão desse ano a trabalhar no Pavilhão de Tiro “A Luminosa” na Feira Popular de Lisboa com a exigente missão de carregar as espingardas de chumbos aos clientes, uma actividade “em que de facto não se transpirava por aí além”. Ainda hoje esse emprego não é recordado com orgulho no círculo familiar e é frequentemente omitido no seu Curriculum Vitae.

Decide transitar para o ensino nocturno na Escola Secundária Dona Maria I (não são necessários dotes de vidente para saber o que aconteceu a essa Escola alguns anos depois…), onde abraça o Curso Complementar de Secretariado e Relações Públicas. Detesta-o, principalmente a cadeira de Organização e Métodos. Apesar disso conclui o referido curso, mas ainda hoje tem pesadelos quando se revê a aprender Estenodactilografia.

Em 1980 informa a família com ar grave e sério de que decidiu aceitar um emprego numa empresa de informática, decisão que à data muito consterna os seus familiares. “Esses tipos dos computadores são gente muito estranha”, disse-lhe a sua mãe, uma frase que pouco tempo depois confirmaria pessoalmente. Teimoso, nem nada nem ninguém o consegue demover de prosseguir o intento. Realiza, à segunda tentativa, uma entrevista de emprego que na óptica do candidato foi um sucesso. “O empregador falava que se desunhava e eu quase não abri a boca”. A resposta que mais vezes forneceu foi a palavra “Sim!” e foi isso mesmo que respondeu à pergunta “Tens alguns conhecimentos de hexadecimal?”. Lembra-se de ter pensado “Vá você!”, mas não passou de um pensamento vadio que depressa se desvaneceu quando se viu admitido e o patrão lhe comunicou que “vais começar por baixo”.

Fê-lo, literalmente, pois foi trabalhar para a cave do prédio aos comandos de uma perfuradora de cartões da Bull que se desfazia sistematicamente de cada vez que era accionada. Um ano mais tarde, desiludido com a profunda monotonia do cor-de-rosa dos cartões perfurados, tenta fugir de Sud Express para Paris onde sobreviveu como pirata informático ensinando a nobre arte na FNAC Les Halles, o que consegue (fugir e ensinar), mas regressará a Portugal quatro semanas depois sem que aparentemente alguém tivesse dado pela sua falta. Com bastantes saudades de casa, lembra-se de ter ficado em estado de choque quando a sua mãe lhe perguntou apenas: “Ficas para jantar?

Continua a ir ao estrangeiro, continua a ter vontade de fugir (talvez mais do que nunca), mas agora está mais gordo e tem mais dificuldade em mexer-se. Abriu um site, faz dois Podcasts (um sozinho e outro com a cumplicidade de mais dois indivíduos (que dá muito menos trabalho que fazê-lo a solo) e faz por sobreviver.

Actualmente tem como profissão stripper num clube gay onde actua todos os dias úteis.

(Mentira, é Consultor de Tecnologias de Informação mas tem vergonha de contar…)

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