THE MAN WHO KILLED OSAMA BIN LADEN

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“The Shooter” é um documentário que a Fox News promete apresentar nos primeiros dias de Novembro de 2014. Não é propriamente uma novidade mediática, este tema da Operação Lança de Neptuno, a delicada operação militar que permitiu a eliminação física de Osama Bin Laden. A primeiríssima obra a quebrar o manto de secretismo sobre esta delicada operação foi o livro “No Easy Day”, assinado por Mark Owen (pseudónimo) e que iniciou uma vaga de investigações aos membros da Seal Team 6 na tentativa de descobrir (e punir) o autor de um livro que bateu records de vendas absolutamente impressionantes. Haveria mais tarde de ser revelada a verdadeira identidade do autor do relato, Matt Bissonette. No Easy Day é um livro interessante mas com passagens que chegam a roçar a monotonia. Li-o assim que pude. Bissonette é algo impreciso quanto à autoria da morte de Osama, mas deixa no ar a possibilidade de ter sido ele mesmo a abatê-lo. Sabemos agora que efectivamente não foi ele a fazê-lo. A segunda obra sobre este assunto foi um filme. “Zero Dark Thirty”, que também já tive oportunidade de ver, é um filme chatíssimo, negro, um pseudo thriller sobre algo que já todos conhecemos o epílogo, que não acrescenta nada ao nosso conhecimento do assunto. A terceira, a gerar bastante expectativa é este documentário da Fox News, “The Shooter”.

(Em abono da verdade, Zero Dark Thirty trouxe-me um facto novo, a existência da personagem Maya que durante uma década trabalhou num universo de pistas sobre o paradeiro de Bin Laden e que chegou a ser, pelos relatos de No Easy Day e Zero Dark Thirty a única pessoa a ter uma fé cega na presença deste em Abbottabad, depois de ter explorado a pista do mensageiro pessoal de Osama, e a única pessoa a avaliar em 100% a possibilidade do alvo “The Pacer” ser Bin Laden – The Pacer foi nome de código atribuído a um dos residentes na casa paquistanesa que os satélites e a apertada vigilância fotográfica nunca conseguiram identificar positivamente. The Shooter tem para com ela um pormenor delicioso (adjectivo meu), ao ofertar-lhe, já na base de Bagram, o seu carregador com vinte e sete munições não utilizadas.

Mas o foco deste artigo é outro. É um excepcional artigo da Esquire. Tão excepcional que me interrogo como está disponível gratuitamente. Uma entrevista com o atirador, uma extensíssima revisão dos factos daquela noite em Abbottabad. Mas não apenas isso, pelo contrário. A análise da situação social a que são votados os membros da Sea Air and Land quando são retirados do serviço activo. Aqueles que passam trezentos dias por ano em missão, aqueles que preferem despedir-se dos filhos antes de uma missão quando estes estão a dormir para lhes custar menos a possibilidade de os não voltarem a ver. Aqueles a quem Obama chamou “os melhores dos melhores”. Aqueles para quem o escritório de um dia normal de trabalho é um buraco infecto no Tchade, na Líbia, no Afeganistão ou no Iraque. Recheado de pequenas histórias, de um humor fora do comum para uma profissão tão perigosa quanto esta em que a morte está sempre, mas sempre presente. São páginas e páginas de múltiplos temas centrados sobre a preparação e a execução do plano de assalto ao complexo residencial de Abbottabad. Um ritmo de narrativa impressionante para um artigo jornalístico, que me atrevo a dizer que envergonha a narrativa de “No Easy Day”…

Mesmo em acção, com todos os nossos altíssimos standards de experiência e prontidão, somos pessoas normais. Caímos a descer escadas, torcemos um pé, somos mordidos por cães. No Iraque, um arrombador estava a colocar uma carga explosiva numa porta para a fazer saltar dos gonzos quando involuntariamente se encostou ao botão da campaínha. Retirou a carga rapidamente e o alvo abriu a porta. Ficámos a olhar uns para os outros, tipo “Tocaste à puta da campaínha??!”. Talvez devêssemos tentar isto mais vezes, pensei.

…Enquanto verificávamos o corpo, fui buscar a mulher da Agência. Ainda envergava o meu equipamento. Olhámos para o corpo no saco e perguntei-lhe “É este o teu gajo?”. Ela chorava. Foi quando retirei o carregador da minha arma e lho dei como uma recordação. Vinte e sete balas dentro dele. “Espero que tenha espaço na mochila para isto”. Foi a última vez que a vi.

Este artigo, que reputo de muitíssima qualidade, é da autoria de Phil Bronstein, um antigo editor do San Francisco Chronicle e actualmente Director Executivo do CIR, Center of Investigative Reporting. A ler e a guardar.

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