A higher call

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What do you owe Franz Stigler?, My life… That’s pretty simple…Sure it is…

A quatro dias do Natal de 1943, um Flying Fortress (Boeing B-17) baptizado “Ye old pub” regressava de um bombardeamento a um conjunto fabril de alvos na cidade de Bremen. Regressava em extrema dificuldade, com apenas um motor funcional, sem lemes de cauda, arrancados por força do castigo das anti-aéreas alemãs. Mais de dois terços da tripulação (de um total de 10 homens) estava gravemente ferida ou morta. Piloto e co-piloto decidiam então perante a gravidade da situação do avião entre saltar sobre território ocupado ou tentar regressar a Inglaterra em débil condição. Fora da formação (era esse o destino de aviões fortemente castigados pelo inimigo), indefeso, tentou apenas ganhar altitude para não sofrer mais ataques. Um único artilheiro ferido ocupava ainda o seu posto na bolha central, mas sem qualquer hipótese de reacção, as armas em baixo, em posição de descanso, a canopy parcialmente destruída pelo fogo alemão. O artilheiro de cauda estava morto, praticamente toda a secção de cauda tinha sido fortemente atingida e havia claros sinais da fragilidade da situação periclitante de toda a estrutura do avião.
O piloto do Boeing B-17 era Charles (Charlie) Brown, 2nd Lieutenent da US Airforce a quem coubera a sua primeira missão de bombardeamento em território alemão. Charlie foi alertado pelo seu artilheiro sobrevivente da presença de um avião inimigo. Na altura não o sabia, mas aos comandos do temível Messerschmitt que descobrira o indefeso B-17, estava Franz Stigler, outro Lieutenent desta vez vez da Luftwaffe. Stiegler não era um novato como Brown. Era um piloto experimentado, uma figura proeminente do seu esquadrão que estava apenas a uma vitória confirmada de obter a sua primeira Cruz de Cavaleiro.
O aparecimento do Messerschmitt de Stiegler não fora propriamente um acaso. O tresmalhado Ye old pub deixava no céu um rasto demasiado visível, mesmo que Charlie tivesse optado por ganhar altitude, a possível mesmo com os seus motores em claro esforço. Acabado de aterrar na sua base operacional,  depois de uma missão em que atacara a formação de bombardeiros em regresso da qual Charles Brown tivera de se ausentar, mal tivera tempo de reabastecer e rearmar quando recebeu ordens de levantar novamente para selar o destino do B-17. Só não o fez imediatamente pois foi alertado para o facto de ter sido detectada pelos seus mecânicos de terra uma bala alojada num dos radiadores da sua máquina voadora. Avaliado o dano, e afastado o perigo de sobreaquecimento do motor, Stiegler voou em busca do seu alvo.
Quando o o encontrou passados poucos minutos, Stiegler percebeu com facilidade o estado lamentável do B-17 bem como a condição da tripulação ferida quase na totalidade. O próprio piloto tinha sido atingido num ombro. Stiegler manobrou por diversas vezes sobre o bombardeiro incapacitado e, como ele mesmo haveria de publicamente confessar, depois de se certificar que não corria perigo imediato, voou em formação por forma a tentar comunicar com Charles Brown. Para surpresa dos americanos, Stigler não abriu fogo. Charles Brown diria mais tarde que teria sido necessário muito pouco para lhes selar o destino.
Stiegler lembrou-se das palavras de um seu ex-comandante, Gustav Rodel sob as ordens de quem tinha servido nas campanhas do Norte de África e que ainda hoje são uma máxima do combate aéreo: “Vocês são em primeiro lugar pilotos de combate. E em último. E sempre. Se alguma vez escutar que um dos meus homens disparou sobre outros pilotos em pára-quedas, serei eu mesmo a disparar sobre quem o fizer”. Na sua cabeça, o Ye old pub não passava de um grupo de pilotos já em pára-quedas…
Franz Stigler nunca explicou a razão que o levou a não abater o Ye old pub. Stigler tentou por gestos e por palavras que Charles Brown percebesse que Stigler queria fazê-los aterrar na Suécia. Brown nunca percebeu (ou não quis perceber) essa mensagem. Rumou ao mar, que atravessado lhes permitiria tentar chegar a uma base em Inglaterra.
Franz Stigler estava consciente do risco que corria ao não abater o seu alvo. Constituía crime de traição depois de julgamento marcial. A uma vitória confirmada da sua Cruz de Cavaleiro, Stigler alinhou o seu Messerschmit com o B-17 pois sabia que se aproximavam das linhas de defesa no norte da costa alemã. Era normal que aviões inimigos fossem tripulados por soldados alemães, fosse em treino, fosse em missões de disfarce. Stigler sabia que os olhos da defesa costeira estariam cravados neles e que a silhueta do Messerschmit seria suficiente para que as baterias costeiras não fossem activadas. Assim aconteceu.
Ultrapassada essa última ameaça Stigler saudou com um aceno o periclitante B-17 e a sua tripulação incrédula e desapareceu no céu de regresso à Alemanha. Com um detalhe. Não regressou à sua base inicial e alegando problemas de refrigeração (a bala alojada no radiador), aterrou numa base mais a norte onde o incidente foi omitido no debriefing do piloto.
Charles Brown e a sua tripulação sobrevivente conseguiram aterrar em segurança em Seething, perante a admiração do pessoal de terra. O Ye old pub não tinha comunicações de rádio e a sinalização da pista foi feita por aviões P-47 a voar em círculos sobre o local. Charles Brown comunicou a própria situação de emergência de forma manual com dois disparos de very light vermelho.
O debriefing de Charles Brown foi minucioso no relato do encontro com Stigler. Várias hipóteses foram levantadas, a da falta de munições a mais plausível. Apesar de algumas chefias quererem tornar o incidente numa história aproveitável para as Relações Públicas, a decisão de abafar o episódio foi tomada, o que impediu qualquer condecoração aos tripulantes mortos no Ye old pub. As vidas de ambos prosseguiram por entre a guerra e finda esta, Charles Brown regressou aos EUA e Franz Stigler conseguiu emigrar para o Canadá onde trabalhou como piloto de turismo e em exibições áreas aos comandos de um Messerschmit que baptizou de “Bad guy”.
Em 1985, sem saber qualquer detalhe do B-17 que decidira não abater, Franz Stigler foi convidado para uma comemoração da Boeing. Hesitou em aceitar, mas a conselho da sua própria mulher a quem pouco tempo antes confidenciara a história, acabou por se deslocar a uma reunião de veteranos de B-17 onde, contaria mais tarde, foi autenticamente bombardeado com questões de americanos curiosos em encontrar um antigo inimigo que conhecia bem o poder de fogo destas aeronaves americanas. Um dos B-17 presentes nesta comemoração era o famoso Memphis Belle, cujo piloto, então Coronel, foi discretamente inquirido por Stigler sobre o episódio de 1943. Mas ninguém conseguiu recordar-se de alguma história deste tipo, a de um B-17 escoltado no regresso a casa por um Messerchmit…
Depois de algumas tentativas, já em 1999 Charles Brown contactou o jornal de uma associação alemão de veteranos de guerra e numa carta ao director descreveu o episódio de forma bastante genérica, sem qualquer detalhe dos danos, na esperança de um contacto cuja sequência lhe permitisse confirmar outros pormenores.
Em 1990, depois de algumas peripécias investigatórias, os dois reuniram-se em Seattle. nos EUA e posteriormente, com a ajuda da própria Boeing, as famílias dos sobreviventes encontraram-se numa base aérea, sob a sombra de uma asa de um B-17.
A higher call, 2012 by Berkley. Hardcover, 392 páginas

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