O pão nosso de cada dia nos vendais hoje

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Vivemos tempos estranhos. Aposto que o meu avô dizia o mesmo e antes dele, os respectivos avós disseram isto e todos, mesmo todos os avós do mundo desde as imediações de Caim e Abel até ao princípio dos tempos subindo a escada pelo sentido mais penoso, disseram exactamente a mesma coisa. Mas é um facto, todos nós perante a mudança e a evolução dizemos a frase. “Vivemos tempos estranhos”. Foi o caso.

Toda a minha vida vi fazer pão. Tive toda a vida para aprender a fazê-lo e não aprendi, apenas usufruí do pão que me foi sendo dado ou oferecido para compra. Vi, por obrigação da vida, muita gente que deixou de o fazer porque a saúde já não permitia o esforço exagerado do suor na amassadura, ou outros a quem ruiram os fornos ou desabaram as esperanças de algum dia vir a fazê-lo, não importa agora é assunto a que recorro frequentemente porque o fabrico de pão, mesmo que industrial, é assunto que me fascina e sabe Deus as coisas pelas quais fico fascinado que fariam rir qualquer mortal mesmo que menos atento às minhas trivialidades. É este meu enlevo que me leva a decorar ladainhas de pão em vias de ficar lêvedo. Nada de absolutamente novo neste campo. Nem sequer nunca entoei alguma pelo singelo facto de nunca o ter feito. O pão.

É noutro campo que encontro motivo de reflexão. As regras das sociedades a imporem-se aquilo que é simples, que brota do que é a nossa cultura. Moro numa aldeia. No campo. Onde gente comum dá seguimento a hábitos que ninguém sabe de onde nasceram, talvez da fome e da arte de transformar em pão o cereal que aprendeu também ele a dar a a volta a um círculo que começa na terra e termina na mesma. Não é momento para filosofar. A. fazia pão. Pão bom. Bom e bem. Fofo, quente, duradouro e denso. Pão como já quase não há. Pão digno desse nome e feito com a massa de que são feitos os hidratos de carbono. Coisa séria. Feita num forno velho de uma casa banal. Com arte e amor se bem que isto do amor seja sempre muito relativo que a gente nunca morde o coração mesmo que ele lá esteja. Não sabemos se levava amor. Farinha, água, sal e fermento, isso era garantido. E um cão.

Havia um cão que dormia ao borralho. Não tem nada de poético. Cães que dormem ao borralho é que o há mais para aí. Haja borralho, venha ele de lareiras ou de bocas de forno, é próprio de quem tem sangue a correr nas veias buscar o quentinho adicional que de lá emana. Neste caso havia um cão que dormia junto à boca do forno da casa de um homem que fazia pão. É campestre, telúrico, basta que comece a chover e um homem se encoste aos rodos da cinza ou aos vasculhos de carqueja para que sinta a força da cena, para não falar do remexer do arquivo da memória. Não é para todos mas foi para mim.

O homem que fazia pão com um cão a dormir na boca do forno, vendia-o. O pão. Aos vizinhos, aos amigos, a quem soubesse que ele lá estava. Domingos e dias santos. Terças e Quintas por imposição da lei dos mercados. A malta pedia, ele fazia. Tão simples como isto. Agradeciam-lhe o cão e os compradores anónimos. A notícia foi-se espalhando. Era bom para o negócio não documentado, que é como quem diz economia paralela. Porque fica mal chamar mercado negro a pães alvos e enfarinhados de côdea gulosa. Mão de obra da sogra na amassadeira que nunca vi, mais outra tanta de pá de cabo comprido no mete e tira da bocarra do forno.

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Nunca lhe fiz fotos. Não se iludam. Nem ao homem, nem ao forno, nem ao cão. Habituei-me a eles, não por esta ordem necessariamente. Ou não necessariamente por esta ordem. Que me incomodam e enjoam certos jogos de palavras. Os anos passaram e o negócio ia-se fazendo. Como disse, indocumentado, paralelo. A. não queria ter chatices, contabilista ou organização. Toma lá, dá cá, é deste tijolo que os muros do mundo se vão erguendo. Um por um, sejam os tijolos mal ou bem cozidos, não é por não teres dentes que não agarrarás o naco. Embrulhem-se à metáfora que eu sou mais manteiga ou azeitonas pretas quando o gastro está de maré.

Estávamos nisto e deu-se o inevitável. Estava acabada a curva mansa da bonança. Entrou-lhe, um dia, não interessa nem releva qual, pela porta da casa do forno adentro, um casal de fiscais. Um par, não interessa nem releva, eram dois. Puxaram do institucional cartão e identificaram-se. Não vi, que lá não estava, mas aposto que A. se benzeu quando ouviu quem eram e ao que vinham. “ASAE”, ter-lhe-ão sussurrado. Eu podia perfeitamente acabar aqui a história, mas não, sou um sádico, logo ali começaram a função, isto é, a de fiscalizar, que como sabemos é um mister delicado e moroso cheio de pergaminhos e requintes de malvadez. Não creio, nem tal coisa me narraram as testemunhas deste acto do Santo Ofício, que tenham provado o pão. Nem aquele, nem outro, talvez o que a sogra de A. tivesse amassado. O diabo, meus amigos, o diabo!

Mediram, fotografaram, fizeram aquilo para o qual lhes retribuímos todos nós, uns mais que os outros certamente. Fiscalizaram. A altura dos azulejos, o forro dos telhados, a impermeabilidade dos rodos. Fiscalizaram a rodos. Ambos. Os dois. Coisa bonita de se lobrigar. Estavam nisto quando o cão, possivelmente animado pela presença de estranhos, veio fazer aquilo que os cães fazem desde o início do mundo, cheirar, farejar, identificar. Sim que o cachorro só dá uso a cartões para se deitar nas soleiras cumprindo o ritual da volta e meia. Sim, é próprio dos cães deitarem-se volta e meia. Fiscalizou-se  tudo. A amassadeira, porosa em madeira, as torneiras, os baldes do lixo em havendo. Não ficou muito por esmiuçar. É próprio e legal. Havia, aproveite-se a imagem, basta lenha para se queimar. O forno, o dono, a sogra, a massa. Fartar, vilanagem.

Acabou-se-nos o pão. Logo ali, à boca do forno, o cão lá deitado, os fiscais em choque, o mundo a tremer por monta da ameaça. Acabou-se-nos o pão. O homem benzeu-se, fez as contas às coimas e às obras, à ereção da novel casota do Bobby e disse algo que eu não ouvi mas que juro aqui a pés juntos que poderá ter sido um sonoro “Foda-se!” que lhe não censuro nem nenhum de nós ousará sequer desmentir. Acabou-se-nos o pão. Ainda há dias encontrei A. na padaria, a comprar pão sintético (se não é mais parece) e lhe disse “Isto é um crime, A. um crime!” ao que ele encolheu os ombros e sorriu, dizendo-me que de vez em quando ainda o fazia mas que não queria vendê-lo com medo das consequências. Despedimo-nos ali, sorrisos trocados, sonhos desfeitos de algum dia vir a ter pão como aquele, guloso, temperado com o sal das lágrimas de um cão que por decerto chora pelo calor perdido.

Esta história esteve para ser escrita durante uns bons cinco anos. Em que comprei pão de que não gosto, daquele que não deixa saudades, que não sabe a sal. Mas há meses renasceu a esperança de inverter a narrativa. Encontrei um outro forno clandestino. Que não vos digo onde é, não que o não mereça, pelo contrário. Mas não quero perder esta preciosidade onde o pão se vende como quem trafica droga. Sossegadamente, quase num aperto de mão secreto, ali faz-se magia. Em forma de bolas de massa tendidas por outra sogra, numa outra amassadeira, envolta numa religiosidade diáfana. Não tem azulejos, torneiras, baldes de lixo e acima de tudo não tem cão. Ou tem, mas rapa frio porque não dorme na boca do forno. O que é uma pena. Porque o povo, aquele que guarda o segredo de um alimento superior não me merece a traição publicitária. Porque não sendo o mesmo homem, é ele que exclama um sonoro “Foda-se!” quando desajeitadamente deixa cair uma moeda nesse imenso mar de trigo cuja maré sobe a mesa que aí vedes e se apressa a persignar-se pela infâmia do descuido. O sagrado e o profano, enfarinhados numa extensa trança entrelaçada. Continuo a comer bom pão. Secreto, mas bom pão. Valha-me Deus!

 

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2 Comentários

  1. Manuel Fernandes on

    Esse pão deve ser bom para fazer torricado para acompanhar com bacalhau assado, e muito alho, e bom azeite, e melhor vinho, e boa companhia, e …

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